Sobre uma crise real, prolongada e devastadora, montou-se uma crise artificial e farsesca. Uma constitui a caricatura da outra. So aspectos dramticos da desorientao que cega as elites das classes dominantes, que vivem no Brasil, mas enxotam do pensamento as necessidades pungentes do povo.

A crise real exprime a multiplicao geomtrica de ardis, de cumplicidades e de malogros dos que mandam. Agem primeiro, em funo de interesses mesquinhos, e descobrem depois que, ao tosquiar, no alteram suas posies. Mantm-se numa subordinao servil ao mercado mundial, em troca de compensaes fictcias das naes centrais e do capital financeiro internacional. Mostram-se incompetentes para suplantar-se e construir projetos nacionais de desenvolvimento econmico vinculados  universalizao da cidadania e  consolidao de uma Repblica democrtica.

A crise artificial seria o lado pitoresco de um pas que no  srio entre os que desfrutam, governam e administram. Revelam competncia para expandir suas fortunas e monopolizar o poder absoluto, amordaando o Estado, submetendo s conciliaes, que reproduzem e ampliam a cultura das aparncias, as bases civis de uma sociedade moderna. A crise artificial equivale a um jogo de cartas marcadas. Os que cedem aos parceiros obtm vantagens econmicas e polticas polpudas. Ela opera como um artifcio e, no fim, se o "desgoverno" se manifesta, fundamenta e justifica a proclamao de uma crise real "explosiva".

Nos dias que correm, confrontamo-nos com essa superposio. Um presidente excntrico nega seus valores e as promessas improvisadas para exibir, em todo o esplendor, um poder que no possui, que lhe escapa entre os dedos como se fosse gua ou areia. O governo identifica-se com os pobres, porm pratica uma poltica para as aves de rapina do grande capital nacional e estrangeiro. Enquanto os lucros voam para o cu, os salrios so soterrados. Os "planos econmicos" brotam do imaginrio de especialistas respeitados e eruditos. Mas aulam as foras naturais da economia, reforando a crise real e inchando a crise artificial. Para responder ao terremoto e desgastar um candidato  Presidncia com probabilidades de vitria, fabrica-se um candidato da ordem, sob o faniquito do patronato e o terror dos liberais, conservadores e reacionrios.

H uma luta entre os trs Poderes? Os militares se aprestam para remover os riscos sinistros do apodrecimento das instituies sacrossantas?

Os partidos da ordem (infelizmente com o PSDB  frente) movimentam-se para a restaurao? A "reforma constitucional" ir resolver problemas candentes imediatos? Pura fantasia! Nem a crise real nem a reforma estrutural do Estado e do governo atraem ao eficaz. Trata-se de um "aproveite quem puder". O que vem do alto  um esforo insensato de soldar o pas a grilhes despedaados, fantasmas do cinema mudo.
